| Saxofonista e clarinetista, com formação pela Julliard School, a melhor escola de música do mundo, Alan Greenspan é um amante da canção negra americana. Antes de enveredar pela economia, chegou a tocar numa banda de jazz, ainda nos anos 40, mas optou por sua outra paixão, a matemática. Para alguns que privam de seu dia-a-dia, o conhecimento e a intimidade com as notas musicais foram determinantes para que imprimisse sua marca na condução da economia dos EUA ao longo dos 18 anos em que está na presidência do Federal Reserve, Fed, o banco central americano. Bob Woodward chegou a batizar a biografia que escreveu sobre ele com o título de "Maestro". Repórter que revelou o escândalo do Watergate, Woodward afirma que Greenspan demonstra rara familiaridade com todos os instrumentos da "orquestra da política e da economia" e comanda por meio do consenso, sem perder a mão firme de um regente. Às vésperas da troca no comando no Federal Reserve, que ocorre em 31 de janeiro, o temor em Wall Street é justamente de que o novo presidente da instituição leve a economia a desafinar - ou de que o Fed recorra a sonoridades demasiadamente convencionais, desprezando a sensibilidade dos jazzistas para o improviso. Afinal, dizem acadêmicos, Greenspan não seguiu manuais de economia e revelou-se cético em relação a modelos e previsões. Como um grande artista, derrubou paradigmas, criou um estilo próprio e tornou-se um "pop star" da economia. "A flexibilidade é um dos maiores legados de Alan Greenspan", diz ao Valor Ricardo Reis, professor de Princeton, que, com Alan Blinder - ex-vice-presidente do Fed e também do corpo docente de Princeton -, escreveu "Understanding the Greenspan Standard" (Compreendendo o padrão Greenspan), paper divulgado no último simpósio de Jackson Hole, em setembro. Sob a batuta de Greenspan, diz o artigo, o Fed experimentou a estratégia de mínimas restrições com a tática da máxima maleabilidade. A chave de sua gestão está no gerenciamento de riscos ou, como prefere Greenspan, da certeza da incerteza. O princípio básico do economista, de acordo com Blinder e Reis, é o de "manter as opções sempre abertas". Ao desprezar doutrinas e fórmulas, o presidente do Fed apostou num ecletismo pragmático. A política monetária americana passou a ser conduzida de forma discricionária, sob o arbítrio do BC, sem o objetivo de uma meta de inflação previamente estabelecida, como no Brasil. "Alan Greenspan acredita que a economia muda rapidamente e de forma distante da econometria convencional para encurralar sua estrutura em fórmulas", afirma o professor de Princeton. Nos anos 90, Greenspan abandonou oficialmente a tese de controle do agregado monetário - a quantidade de moeda em poder do público ou o crédito na economia -, por causa da instabilidade da demanda por estes agregados. Pouco depois, deixou de lado a curva de Phillips, que propõe uma taxa natural de desemprego nos EUA - segundo a qual a porcentagem ideal seria de 6% para que a taxa de desemprego fosse compatível com a não-aceleração da inflação. A partir de 1995, também intensificou a transparência do Fed. Foi uma decisão tomada na contramão da ideologia dominante nos bancos centrais da década anterior, que considerava melhor surpreender os mercados. "Houve uma revolução silenciosa", diz Reis. Oportunista e empiricista, Greenspan marcou sua era por ajustes nas taxas básicas de juros em virtude das notícias que estariam por vir. Seus biógrafos dizem que estuda os inúmeros dados da conjuntura econômica americana em banhos diários de banheira, uma terapia para aliviar terríveis dores nas costas. No meio da espuma, teria buscado informações para identificar as grandes vulnerabilidades da economia e, nas reuniões do banco central, tentado mitigá-las com a manipulação da taxa dos Fed Funds. As taxas de juros determinam o comportamento dos mercados macroeconômicos e estes mercados, de forma independente, alteram outras variáveis globais, como inflação, níveis de produto e emprego, câmbio e preço dos ativos. Greenspan tratou, assim, o longo prazo como uma sucessão de curtos prazos, como disse o colunista do "Financial Times", Martin Wolf. Ao tomar essas decisões, controlou a inflação, o que ajudou na determinação do valor do dólar, a mais importante moeda de reservas do mundo. O impacto nas economias globais, portanto, é direto. Apesar de sua flexibilidade teórica, é possível considerar a regra de Taylor, fruto de um trabalho do economista John Taylor, escrito no início dos anos 90, como uma matriz para o Fed de Greenspan. Taylor desenvolveu um padrão de comportamento para as autoridades monetárias americanas, a partir das informações que eram obtidas sobre o desemprego ou o crescimento e a inflação. "Trata-se apenas de uma alegoria para o pensamento de Greenspan. Não serve para descrever exatamente as decisões tomadas pelo Comitê de Mercado Aberto do Federal Reserve", diz Reis. O tributo que investidores e economistas prestam hoje a Greenspan, na verdade, tem como objeto a "intuição" do presidente do Fed - que, para eles, está na direção certa. Ao sair da sede do Federal Reserve, na Constitution Avenue, no centro de Washington, Greenspan deixará um saldo bem positivo. Objetivos principais do banco central, como pleno emprego, preços estáveis e taxas básicas de juro num nível moderado, estarão cumpridos. Apesar das turbulências econômicas e de excessos financeiros nas últimos décadas, esses índices serão melhores do que consideravam possíveis os analistas, em 1987, quando Greenspan assumiu o Fed. "Greenspan comprovou que a economia de mercado pode manter pleno emprego e inflação baixa. Essa conquista contraria aqueles que acreditavam que era impossível alcançar os dois pontos simultaneamente", afirma ao Valor Allan Meltzer, professor da Carnegie Mellon University. De acordo com pesquisa realizada por ele, de 1997 a 2004, a economia americana abriu 27 milhões de vagas no mercado de trabalho e aumentou o consumo per capita em 44%. De 1995 a 2004, a média da inflação foi de 2,4% e o país enfrentou apenas duas moderadas recessões. "A inflação baixa é o suporte para este resultado", comenta Meltzer. "A inflação alta leva a um ciclo de crescimento e depois de estagnação, o que enfraquece o mercado de trabalho, o crescimento e a confiança." Nos 18 anos anteriores à era Alan Greenspan, houve quatro recessões, incluindo duas das mais graves desde a Grande Depressão de 1930. "Alan Greenspan é o maior presidente da história do Federal Reserve", afirma o professor da Carnegie Mellon University. Como sempre, há várias versões para os mesmos fatos. Ravi Batra, economista e autor de inúmeros best-sellers nos EUA ("The Great Depression of 1990"), acaba de lançar o livro "Greenspan's Fraud" (A fraude de Greenspan), no qual ataca frontalmente a era do "Maestro". "Ele realmente manteve o pleno emprego, mas fazer isso às custas de salários baixos, não é um grande negócio. Dados de 1950 e 60 mostram que, com uma taxa de desemprego de 4%, havia aumento do salário real dos trabalhadores. Sob o comando de Greenspan, os salários reais caíram 75% nos Estados Unidos", afirma Batra ao Valor. Aos 79 anos, Greenspan é o presidente do Fed com mais tempo no cargo, desde que a instituição foi criada, em 1913. A exceção é William McChesney Martin (1951-1970). Árduo defensor do livre mercado, deixou isso claro em sua gestão. Mas seus ideais são antigos. Nos anos 50, depois de abandonar o jazz, tornou-se discípulo da filósofa e escritora russa Ayn Rand (1905-1982), autora de "Quem é John Galt?". Na época, o jovem Greenspan adotara a filosofia do positivismo lógico. Seu princípio era que nada poderia ser conhecido racionalmente com absoluta certeza. Já era um cético por definição, um homem desconfiado. Sob o efeito dessa doutrina, entrou para o círculo de amigos de Ayn Rand, para discutir seus pensamentos, o que rendeu calorosos embates sobre a ética em um mundo tomado pela irracionalidade, os direitos do ser humano e a natureza do governo. No mesmo período, então com 27 anos, Greenspan abriu sua empresa de consultoria, com William Townsend, cavando ali o espaço para vir a ocupar a presidência do Fed, décadas depois. A devoção por estatísticas e matemática, desde o início, ajudou-o a desenvolver modelos para prever a atividade econômica. Em 1987, Greenspan foi nomeado pelo presidente Ronald Reagan (1980-1988) para suceder Paul Volcker (1979-1987). Seu batizado foi difícil. Logo depois de empossado, enfrentou sua primeira bolha. Num único dia, as ações de Wall Street caíram 20%. Mais tarde, em 1989, ao elevar as taxas de juros, a economia desacelerou-se. Desta forma, o Fed pode ter contribuído para a derrota do republicano George Bush (1988-1992) para o democrata Bill Clinton (1992-2000) na eleição de um possível segundo mandato na Presidência dos Estados Unidos. Em 1994 e 1995, outros aumentos nas taxas de juros tiveram resultados mais positivos: a inflação ficou baixa e o país entrou no maior ciclo de crescimento em décadas. Neste meio tempo, teve de lidar com as duas guerras do Iraque (1990 e 2003), uma crise nos mercados asiáticos (1997), da Rússia (1998) e do Brasil (1999), e um medo de deflação em 2003. No entanto, a mancha na biografia de Alan Greenspan, para alguns de seus críticos, está na forma como enfrentou - ou não enfrentou - a bolha da nova economia, a maior da história, de 1998 a 2002. Na opinião do "Maestro", é impossível identificar uma bolha antes da hora, e as taxas de juros, mecanismo principal do Fed para interferir na economia, são imperfeitas para combater a bolha. Para Greenspan, é mais seguro esperar pelo seu estouro e, então, usar suas armas para dar suporte à economia - isto é, no momento que o valor dos ativos despencar. Em muitos de seus discursos, a partir de 1996, Alan Greenspan comentou enfaticamente o perigo de uma exuberância irracional, mas nada fez além de advertir o mercado. Hoje, a discussão é pertinente não apenas para enriquecer o debate a respeito do legado de Greenspan, mas por que, há a possibilidade de uma nova bolha aparecer, desta vez, do mercado imobiliário. Para analistas, as baixas taxas dos juros dos EUA podem ter inflacionado o mercado de imóveis, incentivando-o a assumir riscos excessivos. Raghuram Rajan, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), concorda com Greenspan quando ele se refere à dificuldade de prever com acuidade uma bolha. Para ele, há possibilidade real de una nova bolha estar se formando por causa da desregulamentação do mercado financeiro. Sua tese, defendida em Jackson Hole em setembro, no entanto, propõe que o Federal Reserve seja sempre vigilante. "Num ambiente de juros baixos, há um estímulo crescente a assumir riscos, e isso pode deprimir os prêmios de ativos de risco. Pode elevar os preços de ativos para além do que sugeririam os fundamentos, e esse contexto é, sem dúvida, um grande perigo", diz Rajan ao Valor. Esse cenário favorece o surgimento de gestores de investimento ávidos por lucro rápido e de altíssimo risco. O nó da questão está na alta probabilidade de o incentivo aos riscos diminuir, quando os juros começarem a subir. "Penso que, ao formular a política monetária, precisamos ter consciência dos efeitos que ela poderá ter no comportamento de risco dos agentes. Quando temos juros relativamente baixos em países industrializados, a tolerância a risco cresce, e são financiados projetos de investimento mais arriscados [mais dinheiro aflui para mercados emergentes]. Mas à medida que os juros em países industrializados sobem, aquele afluxo diminui", afirma o economista do FMI. Ravi Batra também avalia que as taxas de juros são um mecanismo capaz de interferir na história, no estouro e na prevenção das bolhas. A dose e a hora certa é que são elas. Cita como erro de Greenspan o aumento das taxas de juros, em 1999, no meio da bolha da nova economia. A decisão teria sido tomada, apesar da desastrosa experiência japonesa em cenário similar dez anos antes. "O Japão havia aumentado as taxas de juros em 1989, no meio de sua bolha, o que levou ao crash da Bolsa de Tóquio. Greenspan deveria ter aumentado os juros em 1996, quando alertou sobre a exuberância irracional, e não em 1999", observa o escritor. Hoje, Greenspan estaria incorrendo no mesmo erro, observa. Os cortes nos juros praticados pelo Fed teriam criado a bolha imobiliária e, agora, "ele está ocupado, mais uma vez, com elevações dos juros no meio da bolha". Ricardo Reis discorda das avaliações de Raghuram Rajan e de Ravi Batra. Para ele, a premissa de usar as taxas de juros para influenciar os mercados em tempos de bolha é grosseira. "Não é correto usar um instrumento que afeta toda a economia para arrumar a casa de apenas um ativo, neste caso, os imóveis. Devemos concluir que parece um pouco despropositado esperar que o banco central tenha como objetivo evitar bolhas." Além disso, Ricardo Reis diz que, apesar de Greenspan ter sido um entusiasta da nova economia, sua posição neutra em relação à bolha estava correta. Em 1996, Greenspan já falava que haveria uma bolha na bolsa, época em que a Dow Jones estava com seis mil pontos, lembra. "Hoje, se é que houve uma bolha, fala-se que ela teria ocorrido no fim de 1999. No espaço de tempo entre 1996 e 1999, a Dow Jones subiu sobremaneira. E, em 2000, 2001, voltou aos valores atingidos em 1998/99. Houve, portanto, um período de ganho, antes de o preço dos ativos despencarem. Não houve as perdas que todo mundo diz, por este parâmetro. Se Greenspan tivesse feito algo diferente do que fez em relação à bolha em 1996, teria sido um erro tremendo", defende Reis. O próximo homem a ocupar a presidência do Federal Reserve terá de lidar com um panorama difícil, tenha Greenspan errado ou acertado na bolha da nova economia. Não só a iminência de uma nova bolha - e a falta de solução para ela -, como também a alta do petróleo, as pressões orçamentárias para uma sociedade envelhecida, a pouca poupança dos americanos, as rápidas transformações na economia global e, sobretudo, os déficits gêmeos americanos (leia mais na página 16). A principal herança do presidente do Fed, poderá ser o "déficit de Greenspan". Nos 18 anos em que esteve no Fed, a economia tornou-se extremamente personalizada. E a flexibilidade teórica do presidente da instituição em nada contribuiu para evitar a agitação e preocupação dos mercados com o seu sucessor. A doutrina Greenspan pode estar no próprio Greenspan. O perigo é o "Maestro" levar as "partituras" consigo. "O Fed pode ter ficado pequeno diante da personalidade de Greenspan", pondera Reis. "Pode ter sido um erro, devido ao ego inflado de Greenspan, ou pode ter sido involuntário. Mais um caso de criação de ídolos." Seja como for, seu destino era mesmo o estrelato - na música ou na economia. "A pena é que no Fed, ele não dará um bis", diz Reis. |