Personagens do Mercado: Merton e Scholes, o Nobel por trás da queda do LTCM
Por: Roberto Altenhofen Pires Pereira
02/06/09 - 11h00
InfoMoney
SÃO PAULO - Esta edição de Personagens do Mercado mostra que mesmo os
personagens mais respeitados não estão isentos de algum revés. A história
do fundo LTCM - Long Term Capital Management - é prova desta afirmação.
Dois gênios do mercado se uniram na fundação do LTCM. Myron Scholes e
Robert Merton estavam por trás da fórmula Black-Scholes, com participação
também de Fischer Black. Juntos, Scholes e Merton fundaram o LTCM para,
entre outras coisas, aplicar a teoria que lhes rendeu o prêmio Nobel de
economia de 1997.
A fórmula
O modelo Black-Scholes foi introduzido no paper de 1973 batizado "The
Pricing of Options and Corporate Liabilities". Apesar de não possuir Merton
no nome, sua participação no processo de elaboração do conceito é
reconhecida, pois ele chegara ao mesmo resultado em outro artigo.
A fórmula de precificação de opções traz o preço justo de uma opção de
compra europeia a partir dos parâmetros: preço atual do ativo objeto, preço
de exercício, volatilidade, taxa livre de risco e tempo até o vencimento da
opção.
O próprio Merton certa vez afirmou que o fundo "casaria a melhor teoria de
finanças com a melhor prática de finanças". Com dois agraciados com o Nobel
à frente e com uma equipe que ainda contava com um ex-presidente do Federal
Reserve de Nova York, David Mullins, e John Meriwether, um famoso trader
que chegou a vice chairman do Salomon Brothers, o LTCM tinha tudo para ter
sucesso.
Teoria na prática
- Black-Scholes -
C = S. N(d1) - X. e-rt. N(d2)
- C: preço da opção de compra (call)
- S: preço do ativo no momento
- N: área sobre a curva - distribuição normal
- d1: [ ln(S/X) + (r + σ²/2) T ] / σ T¹/²
- X: preço de exercício da opção
- r: taxa livre de risco
- T: tempo até o vencimento da opção
- d2: d1 - σ T¹/²
O talento de sua equipe logo começou a colocar o LTCM como um dos fundos
mais respeitados do mundo. O princípio básico era identificar spreads
temporários entre as taxas de retorno oferecidas por títulos de diferentes
países. No longo prazo, a ideia básica era, grosso modo, que estas taxas
iriam convergir, fator que criava a oportunidade de ganhos.
Os primeiros anos renderam ao fundo uma taxa de retorno anual próxima de
40%, o que o colocou nos holofotes. Scholes explicou que a proposta era
ganhar com "pequenos spreads em milhares de operações, varrendo níqueis que
outros não conseguiam enxergar".
Percalço
A ascensão do LTCM foi tão espetacular quanto sua queda. A ruína veio em
1998, com a crise russa. O país havia dado calote no pagamento de seus
títulos, o que gerou uma onda de confiança e migração dos investimentos em
busca da segurança dos Treasuries. Com este movimento, o spread entre as
taxas de juros dos títulos de diversos países em relação às notas do
Tesouro norte-americano aumento exponencialmente.
Por um lado, Merton, Scholes, Mullins e a gabaritada equipe do LTCM tinham
um argumento. O ocorrido na Rússia não trazia precedentes na história dos
mercados emergentes até então. O calote nos títulos denominados em moeda
local ocorreu antes do país não honrar suas obrigações em moeda
estrangeira, o que geralmente não é previsto, tendo em vista a
possibilidade da Rússia emitir sua moeda local para amenizar sua dívida.
Quebra
Diante da ameaça, o fundo foi obrigado a liquidar suas posições e provocou
uma avalanche no mercado de crédito. Como uma prévia do caso atual, o
Federal Reserve teve de intervir para evitar uma quebra generalizada.
Além de realizar um corte emergencial no juro básico norte-americano, a
autoridade monetária articulou resgate próximo de US$ 3,5 bilhões ao fundo,
com recursos de bancos que haviam investido através do LTCM. Vale lembrar
que o Fed não injetou capital próprio no LTCM, apenas orquestrou a manobra
com recursos de terceiros.
A iniciativa do Fed garantiu uma reestruturação do fundo, que anunciou sua
liquidação no início de 2000. A importância da fórmula é inegável e não
pode ser diretamente relacionada aos insucessos na gestão do LTCM. Além de
um esboço do que se tornou rotina atualmente, o caso prova que até o Nobel
pode tropeçar na incerteza.


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